
A realidade era como uma grande xícara de café. Sua fórmula era perfeita, mas sem o calor de que precisava; insuportável. Amargo demais.
Amanda Maiato

A realidade era como uma grande xícara de café. Sua fórmula era perfeita, mas sem o calor de que precisava; insuportável. Amargo demais.
Amanda Maiato
As horas passando, os minutos deslizando lentamente no relógio de parede… Estava chegando a hora de meu despertar.
- A noite. Oh…
Enquanto os sons da cidade pareciam silenciar-se em um momento de paz e descanso, eu saía de meu conforto para enfrentar o caos.
- Eu gostava de estar acordada enquanto todos dormiam. Era a calma de que eu precisava… Meus inimigos sem forças, meus amigos em segurança, meu amor repousando em doces sonhos… – Eu precisava pensar assim. Imaginar qualquer tipo de agitação em sua noite era como ter alfinetes cravados debaixo das unhas.
A noite me parecia realmente segura fisicamente.
Psicologicamente, era uma armadilha para cair em loucura e ansiedades.
A noite era uma incógnita. Charmosa, quieta, cheia de músicas boas e fotografias antigas. Tinha cheiro de livro, gosto de vinho barato…
A noite era uma amiga, uma carrasca.
A noite era como eu.
Escura, torpe, lúdica e maliciosa. Esconderijo de sonhos e secretas luxúrias.
Amanda Maiato
Boa tarde, menina…
Devo lhe dizer que suas palavras me atingiram de uma forma quase desconcertante. Tu jamais saberá o quanto isso me deixou e me deixa feliz. Eu escrevo exatamente pra isso, pra que outras pessoas entendam e sintam que não estão só. Não só nos sentimentos, mas nas loucuras e todo esse amontoado de sensações que nos rodeia. É por coisas como essa que tu me escreveu, que eu ainda acredito na arte e a faço com amor.
Muito obrigada, MESMO.
Tenha uma belíssima sexta-feira.
Amanda Maiato

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Ser ou deixar de ser nunca foi uma opção. Minha existência queimava como fogo toda vez que eu despertava. -Ora, eu fui amaldiçoada com o pior dos castigos… Eu existia! E contra isso, nada podia ser feito. Só existia uma segunda alternativa e essa era ainda mais perigosa que respirar: A Morte.
Uma parte de mim queria esquecer as mágoas e recomeçar. Partir de um novo ponto, mudar a mobília, as palavras, as intenções. Eu era jovem, mas me sentia velha e por vezes, amarga. Tinha a mania de culpar destino, luas, ventos e os tombos da bebida. Essa metade de mim queria mudar. Contava meus anos e sabia o quão desnecessário era tal sofrimento, o peso das desilusões precoces. Essa era a parte de mim que queria se libertar.
A outra, (mais forte e dominante), achava que minha essência se encontrava na escuridão, no limbo da minha mente. E de fato, minha arte vinha dos beijos de despedidas, dos telefonemas não recebidos, dos amores que me deixaram. No fundo, eu gostava disso. -Eu me deliciava nas ranhuras do disco. Eu me alimentava desses desencontros, dos finais dolorosos e mal acabados. Eu me lapidei no fogo, na força do ferro. Eu podia tentar domar meus vícios, meu vocabulário e minhas mãos inquietas, mas não seria eu, ali, sentada de pernas cruzadas esperando alguém me atirar do penhasco. Eu mesma o faria, pois nem um vilão era páreo para mim. Eu não precisava de carrascos ou venenos. Eu bebia do arsênico para sobreviver.
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Cá estou.
Na Porto Alegre fria e indiferente. Porto de ruas lentas.
Consigo enxergar ao longe, o Mercado abraçando o Largo, recebendo essa gente apressada que a tempestade atrasou. Velhas senhoras, cabides de suas sacolas, aglomeram-se as voltas da entrada principal e resmungam: Setembro é o Senhor do Inverno, carrasco do bom tempo, inimigo das estrelas.
As vistas do Guaíba em fúria, o pranto límpido a dedilhar a beira de um Gasômetro descolorido, pôr do sol de Vitor Ramil.
Andando nos trilhos do Cais, eu encontro repouso. Descanso os ombros e o guarda-chuva sob o toldo de um bar esquecido. Cheiro de concreto, vista de rio. Na Mauá posso ouvir os passos pesados, firmes e apressados querendo afundar em tapetes de lã. Nobres senhores sem tempo, sem vagas, sem carros… Reclamam dos automóveis frenéticos a buzinar, monstros da cidade grande duelando por espaços, atropelando os mais frágeis, abrigando os mais egoístas.
Não existe tráfego na Rua da Praia, o que se vê é uma procissão de baianas. Vistas de cima, dançam e giram sem destino, bailam no coração da cidade protegendo chapéus e penteados debaixo de suas saias.
Cá estou.
Subindo a Borges de Medeiros e estranhando o raro silêncio da Esquina Democrática, os senhores da política temem a chuva. Na Salgado Filho, a esquina de mármore esconde jovens desavisados, encharcados e solitários a espera de algo que não vem. A calmaria de viver aqui.
Ao subir no ônibus sinto o calor de uma multidão pronta para o merecido descanso. Relaxo minhas costas num dos últimos bancos vagos e olho pela janela embaçada do coletivo, vejo Porto Alegre sem cor. Porto de muitas paradas, mas carente de pousos.
“Havia duas alternativas para responder meu dilema: -Você era incrivelmente único e especial, e por esse motivo não conseguia esquecê-lo, ou meu leque de opções era tão ruim que não superava sua ausência…
Nos últimos tempos eu acreditava mais na segunda opção.”
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-Sofria por tudo; Por amor, pela falta dele. Esquecimentos e lembranças. Sofrer era tão habitual quanto o pão quente na hora do café.
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Não há Carnaval nem recepções festivas me aguardando do outro lado. Oradores e carrascos, um último discurso infeliz sobre minha desistência covarde.
-Eu escolhi meu destino. Um brinde a minha morte.
Visões de um tempo bom -o antigo oásis de minha ingênua esperança.
A troca de casca, credo ou casa, jamais mudará de onde eu vim. Assim como a mudança de caminho não mudará pra onde eu vou, alguns destinos já estão marcados.
-Ainda somos os mesmos- diriam mais uma vez os poetas bêbados que me viam jogar naquele bar. -Você ainda será o reflexo do que mais detesta- Eles me amaldiçoariam, corretos observadores da minha história. Seria realmente muita audácia da minha parte querer ser diferente.
Eu nasci pra isso.
Vim ao mundo com a marca da tempestade e é sob ela que vou viver.
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